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terça-feira, 9 de outubro de 2012

As estrelas roubadas da Via Láctea


Região externa da galáxia captura astros de aglomerados globulares
RICARDO ZORZETTO | Edição Online 9:24 3 de outubro de 2012
© ESO
Aglomerado globular M4: possível origem da estrela G53-41
Um trio de astrofísicos peruanos do qual faz parte Jorge Meléndez, da Universidade de São Paulo (USP), obteve a primeira evidência direta de que parte das estrelas do halo, a região mais externa e com menor densidade de gás e estrelas da Via Láctea, originou-se em pequenas áreas de altíssima concentração estelar conhecidas como aglomerados globulares.
Com a forma de uma gigantesca esfera que envolve toda a galáxia, o halo abriga estrelas com 10 a 12 bilhões de anos de idade, que estão entre as mais antigas da galáxia e se distribuem de duas formas: ou estão muito dispersas (são as chamadas estrelas de campo) ou extremamente adensadas nos aglomerados globulares. Segundo Meléndez, cujo trabalho foi financiado pela FAPESP, há algum tempo se acredita que boa parte das estrelas de campo se formou nos aglomerados globulares, dos quais se desprenderam mais tarde, mas ainda não se havia encontrado prova disso. Na mais recente assembleia geral da União Astronômica Internacional, realizada no final de agosto na China, houve uma sessão para discutir exclusivamente esse assunto. “Não se chegou a um consenso”, diz Meléndez, “mas a maioria dos astrônomos concorda que ao menos 10% das estrelas do halo vieram dos aglomerados globulares”.
Em um estudo publicado na edição de 1º de outubro da revista Astrophysical Journal, Meléndez, Iván Ramírez, da Universidade do Texas, e Júlio Chanamé, da Universidade Católica do Chile, apresentaram a primeira evidência de que estrelas de campo do halo podem ter escapado de aglomerados globulares e, atraídas pela gravidade, ido parar em regiões do halo onde as estrelas são mais esparsas.
Com o auxílio de três poderosos telescópios – o Magellan, instalado no Chile; o Mcdonald, na região continental dos Estados Unidos; e o Keck, no Havaí –, eles realizaram uma análise de altíssima precisão da composição química de 67 estrelas do halo. Duas dessas estrelas, a G150-40 e a G53-41, mostravam as características químicas de estrelas nascidas em aglomerados globulares: tinham baixa concentração do elemento químico oxigênio e abundância maior de sódio. Os pesquisadores ainda não sabem dizer com precisão em quais dos quase 160 aglomerados conhecidos elas teriam se formado. Comparando o conteúdo de ferro dessas estrelas com o dos aglomerados, os pesquisadores identificaram 10 deles que podem ter gerado a G150-40. Já no caso da G53-41, há cerca de 20 aglomerados que a podem ter originado, entre eles, o M4.
Calcula-se que as estrelas roubadas tenham entre 10 bilhões e 12 bilhões de anos de idade. Isso é mais que o dobro da idade do Sol, que se encontra em um dos braços que formam o disco da Via Láctea, uma das últimas estruturas a surgir na galáxia. Meléndez planeja ampliar o estudo das estrelas do halo. No final de setembro ele enviou para o Observatório Europeu Austral (ESO) um pedido de tempo para fazer o mapeamento de 1.500 estrelas do halo e, se tudo der certo, conseguir uma estimativa melhor de onde se originaram.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

VISTA Descobre Novos Aglomerados Estelares Globulares

ESO1141pt-br — Foto de Imprensa
19 de Out. de 2011


... e observa além do coração da Via Láctea.





Dois novos aglomerados globulares juntaram-se ao total dos 158 já conhecidos na Via Láctea. Estes objetos foram encontrados nas novas imagens do telescópio de rastreio VISTA do ESO, no âmbito do rastreio que está sendo executado na Via Láctea (VVV). Este rastreio descobriu o primeiro aglomerado estelar que se encontra muito além do centro da Via Láctea e cuja luz, para chegar até nós, teve que viajar através do gás e poeira que se encontram no coração da nossa galáxia.
O aglomerado globular brilhante chamado UKS 1 domina o lado direito da primeira das novas imagens infravermelhas do telescópio de rastreio VISTA do ESO, situado no Observatório do Paranal, no Chile. No entanto, se desviarmos por um momento os olhos deste objeto brilhante, espera-nos uma surpresa neste campo rico em estrelas - um aglomerado globular mais tênue descoberto nos dados de um dos rastreios do VISTA. Para distinguir este aglomerado estelar é necessária uma observação atenta. Este objeto, chamado VVV CL001, consiste numa pequena coleção de estrelas visível na metade esquerda da imagem.

O VVV CL001 é apenas o primeiro das descobertas globulares do VISTA. A mesma equipe descobriu um segundo objeto, VVV CL002, que aparece na imagem abaixo.


No centro está o  recém-descoberto aglomerado globular VVV CL002, previamente desconhecido, que aparece como uma concentração discreta de estrelas fracas perto do centro da imagem. Encontra-se perto do centro da Via Láctea.
Crédito da imagem: ESO/D. Minniti/VVV Team

Este pequeno e tênue grupo de estrelas pode ser também um aglomerado globular, o mais próximo do centro da Via Láctea conhecido até agora. A descoberta de um novo aglomerado globular é muito rara, sendo que o último foi descoberto em 2010 e que apenas eram conhecidos 158 na nossa galáxia antes destas novas descobertas.

Estes novos aglomerados são as primeiras descobertas do rastreio do VISTA intitulado Variáveis na Via Láctea (VVV), que estuda do modo sistemático as regiões centrais da Via Láctea no infravermelho. A equipe VVV é liderada por Dante Minniti (Pontificia Universidad Católica de Chile) e por Philip Lucas ((Centre for Astrophysics Research, University of Hertfordshire, RU).

Além de aglomerados globulares, o VISTA também está encontrando muitos aglomerados abertos ou galácticos, os quais contêm geralmente estrelas mais jovens e em menos quantidade do que os aglomerados globulares e são muito mais comuns (eso1128). Outro aglomerado recentemente anunciado, VVV CL003, parece ser um aglomerado aberto que se encontra na direção do centro da Via Láctea, mas muito mais longe, ou seja cerca de 15 000 anos-luz além do centro. Este é o primeiro aglomerado deste tipo a ser descoberto do lado de lá da Via Láctea.

Devido ao brilho fraco dos novos aglomerados encontrados, não é de admirar que estes tenham permanecido escondidos durante tanto tempo. Até há cerca de alguns anos atrás o UKS 1 (visto na imagem a), que eclipsa totalmente em brilho estes objetos, era o aglomerado globular mais tênue conhecido na Via Láctea. Devido à absorção e avermelhamento da radiação estelar por efeito da poeira interstelar, estes objetos apenas podem ser observados no infravermelho e consequentemente o VISTA, o maior telescópio de rastreio do mundo inteiro, está idealmente preparado para procurar novos aglomerados que se encontrem escondidos por trás de poeira nas regiões centrais da Via Láctea.

Uma possibilidade interessante é que o VVV CL001 esteja gravitacionalmente ligado ao UKS 1 - tornando estes dois grupos estelares no primeiro par binário de aglomerados globulares na Via Láctea.

Estas imagens do VISTA foram criadas a partir de dados obtidos através dos filtros infravermelhos J (a azul), H (a verde) e K (a vermelho). O tamanho das imagens mostra apenas uma pequena fração do campo de visão total do VISTA.

 
Crédito da imagem: ESO/D. Minniti/VVV Team and Digitized Sky Survey 2. Acknowledgement: Davide De Martin

A imagem acima mostra uma comparação da visão do recém-descoberto aglomerado globular VVV CL001 em luz visível (superior) e infravermelho (inferior). A visão infravermelha, a partir do telescópio VISTA, mostra o novo cluster de forma muito clara, permitindo melhor o seu estudo. A versão de luz visível foi criada a partir de fotografias tiradas com filtros azul, vermelho e infravermelho e que fazem parte do Digitized Sky Survey 2. O cluster mais conhecido e mais brilhante globular UKS 1 aparece à direita.




  
Crédito da imagem: ESO and Digitized Sky Survey 2. Acknowledgement: Davide De Martin


Esta grande vista da região, muito rica, em torno do recém-descobertos aglomerado globular VVV CL001 e sua companheira mais brilhante UKS 1 foi criada a partir de fotografias tiradas com filtros azul, vermelho e infravermelho e fazem parte do Digitized Sky Survey 2. Os aglomerados globulares estão perto do centro da imagem, mas são quase totalmente invisíveis nesta vista. O campo de visão é de aproximadamente 2,8 graus de diâmetro. 





Crédito da imagem: ESO/D. Minniti/VVV Team

Esta imagem do VISTA é uma parte minúscula do projeto VISTA de Variáveis na Via Lactea (VVV), cujo objetivo é conduzir um estudo sistemático das partes centrais da Via Láctea em luz infravermelha. No centro da imagem está o aglomerado globular aberto VVV CL003. Este aglomerado recém-descoberto, aparece como  uma  concentração de estrelas fracas na direção do centro da Via Láctea, a uma distância aproximada de 15000 anos luz alem do centro.