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terça-feira, 30 de abril de 2013

Os mamutes estão voltando






mamutes

RIA Novosti

Cientistas japoneses planejam até 2017 “ressuscitar” um mamute. Atualmente genetistas de todo o mundo já estão trabalhando em clonação de animais extintos ha dezenas de milhares de anos. Alguns especialistas afirmam que dentro em breve a Terra irá parecer com o filme holliwoodiano O Parque dos Dinossauros, outros exortam a não confundir a realidade e as campanhas publicitárias.

Já não é o primeiro decênio que a ideia de clonar qualquer animal extinto está impacientando os cérebros quase científicos e as amplas camadas da população. No entanto, hoje em dia, ninguém fala a sério nem por brincadeira na ressuscitação de répteis pré-históricos. Por encontrar-se no solo durante períodos demasiado longos, seus ossos não se conservaram deixando só impressões fossilizadas.
Mas o caso do mamute-lanoso é bem diferente. A história destes animais começou quase simultaneamente com a história do ser humano, embora o fim da primeira foi muito mais precoce. Ao contrário dos dinossauros, cujos restos são encontrados mais frequentemente em desertos cálidos e pedregosos, os mamutes jazem congelados no permafrost das áreas circumpolares da Sibéria e América do Norte. Essa espécie de “frigorífico” permitiu conservar seus tecidos brandos, ossos e, às vezes, inclusive a pelagem ao longo de milhares de anos.
É a partir daí que surge o milagre de clonagem de mamutes, na qual os cientistas pela primeira vez – embora com enorme dose de ceticismo – começaram a falar a sério. O único que os cientistas necessitam para tal é um fragmento de tecido da espécie extinta que contenha ADN em estado de boa conservação. A materialização do projeto é perfeitamente factível mas não produzirá nenhuns efeitos positivos, acredita o biólogo, jornalista científico e editor do site Vechnaya Molodost (Juventude Sempiterna), Alexander Chubenko:
“Não se sabe de que maneira os genes se dispunham nos cromossomos, e não estou certo, aliás, se é conhecido o número de cromossomos, porque o que podem conservar os tecidos congelados até tal grau são apenas restos ou porções do ADN. Além disso, é bastante duvidoso que o útero de elefante aceite um embrião de mamute, mesmo se este for obtido. A ideia de Jack Horner, da Universidade do Estado de Montana, é muito mais interessante e promissora. Ele pretende fazer uma “dinogalinha” ou um “galinhassauro”. Trata-se de pegar na galinha e despertar nela os genes adormecidos que atualmente já não funcionam, e então, talvez no final de várias evoluções, do ovo de galinha sairia algo parecido a um filhote de dinossauro.”
Na opinião do especialista, um experimento científico de tal natureza custaria cerca de 2 milhões de dólares, enquanto os gastos com a clonagem do mamute poderão ascender até a vários bilhões. Empresários norte-americanos oferecem aos inconsoláveis donos de mascotes finadas o serviço de “ressuscitação” destas por uma remuneração incomparavelmente mais modesta: a clonagem de um cãozinho ou gatinho amado custa nos EUA por volta de 250 mil dólares. Mas a clonagem de um animal doméstico e a de um mamute são duas coisas bem diferentes, pois o mamute, segundo acreditam muitos especialistas, simplesmente não seria capaz de sobreviver nas condições atuais, porquanto o clima da Terra já não é semelhante ao que existira há 400 mil anos.
Entrementes alguns cientistas apenas estão dando os primeiros passos na tentativa de clonar o mamute, outros, da Universidade de Nova Gales do Sul (Austrália), já reproduziram o genoma de uma espécie rara de rã completamente extinta no início da década de 1980. Aliás, os embriões obtidos não eram capazes de sobreviver. O mesmo aconteceu com a cabra-montês pirenaica clonada em 2009, que morreu logo a ter nascido. Não obstante a isso, os cientistas não ficam desencorajados apostando na iminência de um salto qualitativo na clonagem de espécies extintas. A que resultado poderão conduzir tais experiências? Não obteremos acaso monstros?
De acordo com o doutor em biologia, professor catedrático e diretor adjunto do Instituto de Genética Molecular da Academia das Ciências da Rússia, Viacheslav Tarantul, “está sendo debatido inclusive um projeto tal como a clonagem de um homem-de-neandertal. Não é oHomo sapiens, mas sim a subespécie deste. É uma questão controversa, bem como a clonagem do ser humano. Porque é desconhecido o que é que vai crescer e como tratar tal criatura: como animal ou como humano? Por fim, existem problemas técnicos, morais e, naturalmente, econômicos.”
Para além disso, hoje existe mais um problema bastante importante. Na Yakútia, uma região de permafrost que encerra enorme quantidade de formas de vida esquecidas, desenrolou-se uma verdadeira guerra por restos fósseis de animais extintos. A par de expedições devidamente autorizadas pelo Estado, na Yakútia estão pirateando os “caçadores ilegais de mamutes”. Na sequência do banimento mundial, em 1990, do comércio de marfim, os dentes dos elefantes, dos quais fazem as mais variadas coisas – de peças de xadrez a adornos – só aumentarem em preço. No mercado negro, um par de dentes do elefante pode custar até 75 mil euros. Inclusive a primeira dama dos EUA, Michelle Obama, gosta de aparecer com um colar de marfim.
Enquanto alguns se dedicam a clonagem de espécies animais raras e outros fazem dinheiro com a clonagem, no planeta persiste um problema muito mais importante. A biodiversidade da Terra torna-se cada dia mais pobre. Por isso, muito em breve pode acontecer que o mundo terá que refletir sobre a clonagem de tigres, leopardos e rinocerontes ainda vivos.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A dupla hélice do DNA podia ter dado um Nobel da Química


James Watson (à esquerda) e Francis Crick, em Maio de 1953, a olhar para o seu modelo da molécula de ADN DR
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  • O 25 de Abril não é só o dia da Revolução dos Cravos. Foi também nesta data que, há 60 anos, uma das descobertas científicas mais essenciais do século XX foi anunciada
A publicação pela revista Nature da estrutura em dupla hélice do ADN, a molécula que contém o património hereditário dos seres vivos e permite a replicação da vida, faz neste dia 60 anos. Em jeito de comemoração, a Naturerevela, na sua edição de hoje, 25 de Abril de 2013 (que este ano é a uma quinta-feira, o seu dia habitual de publicação), elementos inéditos sobre o processo que culminaria, em 1962, com a atribuição a James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins do Prémio Nobel da Medicina.
1953: na página 737 da sua edição de 25 de Abril, a Nature traz um curto artigo: Estrutura Molecular dos Ácidos Nucleicos - Uma Estrutura para o Ácido Deoxirribonucleico. Assinado por Watson e Crick, da Universidade de Cambridge, Reino Unido, arranca assim: "Vimos sugerir uma estrutura para o sal do ácido deoxirribonucleico (A.D.N.). Esta estrutura tem propriedades inéditas de considerável interesse biológico."
Com peças metálicas de tipo "mecano", Watson e Crick construíram, no seu laboratório, um modelo 3D a partir de radiografias do ADN obtidas por uma jovem cristalógrafa, Rosalind Franklin, que trabalhava com Maurice Wilkins, do King"s College de Londres, procurando também elucidar a estrutura do ADN.
O que é que se sabia naquela altura sobre a hereditariedade? Que os caracteres hereditários eram transmitidos por entidades chamadas genes; que os genes estavam nos cromossomas, estruturas que se dividiam em duas cópias idênticas durante a divisão celular, conferindo a cada uma das células-filhas um conjunto de cromossomas idênticos aos da célula-mãe; e que os cromossomas continham ADN. Assim, ao desvendarem a estrutura em dupla hélice do ADN, Watson e Crick permitiam um avanço absolutamente fundamental, que, aliás, também delineavam no seu artigo de 1953: "Não deixámos de reparar que a organização específica das bases [os "tijolos de construção" do ADN] por pares, que nós propomos aqui, sugere imediatamente um mecanismo possível para a replicação do material genético."
O trabalho de Watson e Crick começou a ser nomeado para o Nobel da Medicina a partir de 1960. Em Dezembro de 1961, Crick enviou a Jacques Monod, a pedido deste - que trabalhava no Instituto Pasteur em Paris com François Jacob (que morreu há poucos dias) -, nove páginas descrevendo o trabalho sobre o ADN, explicam hoje na Nature Alexander Gann e Jan Witkowski, do Laboratório de Cold Spring Harbor (EUA). Mas enquanto outros eminentes cientistas, também solicitados, nomeavam Watson, Crick e Wilkins na categoria de medicina, Monod preparava-se para os nomear, ao contrário do que se pensava até aqui, na da química. A prova disso é a carta de nomeação que Monod escreveu a seguir, recentemente descoberta nos arquivos do Instituto Pasteur. Todavia, os responsáveis pela atribuição dos Nobel consideraram a descoberta tão importante para a biologia que a escolha que se conhece acabou por vingar.
O relatório que Crick enviou a Monod em 1961 restabelece ainda uma justiça histórica. Acontece que, no artigo de 1953 na Nature, Watson e Crick apenas mencionavam Rosalind Franklin em passant, declarando terem sido "estimulados (...) pelos [seus] resultados experimentais ainda não publicados". A jovem cientista morrera em 1958 - e portanto nunca poderia ter sido incluída nas nomeações para o Nobel, mas muitos criticaram os laureados por terem menorizado o seu contributo. Ora, na sua carta a Monod, explicam ainda Gann e Witkowski, Crick já reconhecia claramente "a importância das imagens de Franklin para a determinação de certas características da estrutura do ADN".

sábado, 8 de dezembro de 2012

Cineasta faz mistério sobre resultado da expedição à Fossa das Marianas


Simulação mostra o caminho até as Marianas; ponto só foi atingido por três pessoas até hoje
Foto: Divulgação/Noaa
Simulação mostra o caminho até as Marianas; ponto só foi atingido por três pessoas até hojeDIVULGAÇÃO/NOAA
Organizada com estardalhaço no fim de março, a expedição científica do cineasta James Cameron ao ponto mais profundo do planeta, a Fossa das Marianas, não teve ainda seus resultados divulgados. Esta semana, porém, Cameron satisfez um pouco da curiosidade dos oceanógrafos ao revelar, a uma audiência seleta da União Geofísica Americana, pílulas do que viu a 10,9 mil metros da superfície do Pacífico.
— Conseguimos colher alguns resultados científicos incríveis com este projeto — antecipou o cineasta à emissora americana ABC.
Pilotando o minissubmarino Deepsea Challenger, projetado especialmente para a missão, Cameron tornou-se o terceiro ser humano a atingir o fundo da Fossa das Marianas — os outros dois cumpriram o feito em 1960.
Nos testes realizados antes da missão, o Deepsea Challenger já tinha ido além dos 8,2 mil metros, em que operam os submarinos atuais. Conseguiu, assim, chegar à Fossa da Nova Bretanha, até então nunca explorada, mesmo por veículos remotamente operados.
Em termos de biologia, a Fossa da Nova Bretanha tem um movimento semelhante ao de grandes metrópoles se comparada ao deserto que são as Marianas. Na primeira, o minissubmarino e veículos robóticos flagraram abundantes comunidades de vermes e anêmonas-do-mar, alimentadas por nutrientes que vinham de ilhas próximas dali.
Após a viagem de Cameron, os veículos robóticos visitaram dois pontos no fundo do mar. Um deles foi até a bacia chamada Serena, onde tapetes microbióticos cobrem as rochas.
Esta semana também foi marcada pelo triunfo de outro robô. Papa Mau, lançado no oceano no ano passado em São Francisco, nos EUA, completou uma travessia de 16,6 mil quilômetros até Queensland, na Austrália. O veículo projetado pela americana Liquid Robots enfrentou vendavais, desvencilhou-se de tubarões e passou pela Grande Barreira de Corais da Oceania até chegar ao seu destino.
Outros três robôs foram lançados no oceano pela empresa. Benjamin deve chegar à Austrália no início do ano que vem. Os outros dois têm o Japão como destino.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Cérebro de Einstein era mais complexo que o normal


Estudo com 12 fotografias do órgão chegou à conclusão de que a massa cinzenta daquele que é considerado um dos maiores gênios de todos os tempos era diferente em diversos aspectos


A descoberta mais impactante se refere aos padrões complexos de certas partes do córtex cerebral de Einstein
Foto: Divulgação
A descoberta mais impactante se refere aos padrões complexos de certas partes do córtex cerebral de EinsteinDIVULGAÇÃO
RIO - Um estudo com 14 novas fotografias do cérebro do físico Albert Einstein chegou à conclusão de que a massa cinzenta daquele que é considerado um dos maiores gênios de todos os tempos era diferente em diversos aspectos. Pesquisadores da Universidade do Estado da Flórida, nos Estados Unidos, analisaram as imagens e as compararam aos padrões estruturais de outros 85 órgãos semelhantes separados em outros trabalhos.
A descoberta mais impactante se refere aos padrões complexos de certas partes do córtex cerebral de Einstein, principalmente no córtex pré-frontal e no visual. O primeiro é importante para o pensamento abstrato e pode ter sido fundamental para a realização das experiências do físico.
Líder do estudo, a antropóloga Dean Falk também percebeu características incomuns no córtex somatossensorial, que recebe as informações sensoriais do corpo. Os pesquisadores envolvidos no trabalho sugeriram que a área possa estar relacionada às habilidades de Einstein no violino.
Em 1955, durante a autópsia do físico, o patologista Thomas Harvey removeu o cérebro e o conservou em formol, sem antes deixar de realizar varias fotos, para só então cortá-lo em 240 blocos. Em seguida, dividiu as partes em aproximadamente 200 lâminas para estudo microscópico. As imagens e as lâminas foram distribuídas a pesquisadores pelo mundo.
A autópsia, na época, revelou que o cérebro de Einstein era menor que a média e outras análises posteriores não descobriram algo que fosse anormal. Alguns anos depois, porém, pesquisadores descobriram que partes do cérebro continham uma quantidade anormal de um tipo de células chamadas gliais, que proporcionam suporte e nutrição aos neurónios. O lobo parietal, relacionado a funções espaciais e visuais, também possuía um padrão diferente de sulcos e rugas.

domingo, 18 de novembro de 2012

Passarinhos ficam bêbados ao comer frutas fermentadas


DE SÃO PAULO
Doze corpos de melros-pretos encontrados em uma escola na Inglaterra deixaram pesquisadores intrigados.
Um único exemplar sobrevivente da pequena mortandade tinha sintomas estranhos: não conseguia se manter em pé sem se apoiar nas asas.
Para esclarecer as mortes, exames foram feitos nos cadáveres. Os testes não encontraram infecções nos bichos, mas frutos de sorveira, uma árvore que dá frutinhas vermelhas, estavam no estômago dos passarinhos pretos.

Creative Commons
Melro-preto, pássaro da espécie atingida pela mortandade causada por embriaguez
Melro-preto, pássaro da espécie atingida pela mortandade causada por embriaguez
Os frutos estavam fermentados, e foi encontrado álcool nos tecidos de um dos três cadáveres analisados. O pássaro sobrevivente com sintomas de embriaguez se recuperou depois de dois dias.
Segundo o artigo publicado na revista "Veterinary Record", os bichos podem ter sofrido fraturas ao cair das árvores ou colidir uns com os outros por causa da embriaguez, o que levou à morte de parte deles.
Fenômeno similar já havia sido observado com outras espécies de pássaro, como o tordo-ruivo, e também com outros animais, como orangotangos, que acabam intoxicados após comer frutas maduras demais.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Guerra biológica no mar

Introduzida por plataformas de petróleo, espécie de coral originária do Oceano Pacífico hoje trava uma batalha contra a biodiversidade marinha nativa da Ilha Grande


A bióloga Camila Meireles retira o coral-sol na costa da Lagoa Azul, na Ilha Grande
Foto: Marcelo Piu / Agência O Globo
A bióloga Camila Meireles retira o coral-sol na costa da Lagoa Azul, na Ilha GrandeMARCELO PIU / AGÊNCIA O GLOBO
Desligar o motor da embarcação na Lagoa Azul, em Ilha Grande — onde as águas são límpidas, calmas e estão protegidas por pequenos montes de Mata Atlântica — e não ouvir nada além do vento. Pareceria um pacífico oásis, se não soubéssemos que sob o espelho d’água trava-se uma guerra cujos gritos não podem ser ouvidos. Com tentáculos de cores em tons de fogo num espetáculo de balé majestoso aos olhos, o chamado coral-sol, que engana por sua beleza, vem vencendo uma batalha contra a biodiversidade marinha da localidade.
A espécie exótica chegou à Baía da Ilha Grande, no Estado do Rio, na década de 1980, trazida por plataformas de petróleo, segundo pesquisadores. Originário do Oceano Pacífico, acredita-se que o coral tenha viajado incrustado nas estruturas das plataformas e encontrado um ambiente adequado para sua proliferação nos costões rochosos da baía. Hoje, ele se aloja não apenas na Lagoa Azul, mas sim em 900 quilômetros de costões, e cresce numa velocidade de três quilômetros ao ano, se fosse posto numa forma linear.
O alastramento de dois tipos de coral-sol (o Tubastraea coccinea e o Tubastraea tagusensis) é prejudicial para o equilíbrio do ecossistema, já que eles vem ganhando espaço de outras espécies nativas. Entre elas, o chamado coral-cérebro, que é encontrado apenas no litoral brasileiro, e pode ser expulso de algumas áreas onde o coral-sol é predominante. Os mexilhões também estão sofrendo com a força dos cnidários. A invasão dos corais, somada a outras questões ambientais, tem sido responsável pela diminuição da população desses moluscos na baía, como afirmam pescadores locais. Além de afetar as espécies nativas, a predominância deste coral pode levar a outros prejuízos para o meio ambiente:
— A tendência é a diminuição do número de peixes — alertou coordenador do Projeto Coral-Sol, Joel Creed, professor do Laboratório de Ecologia Marinha da Uerj. — A abundância do coral-sol provoca uma mudança alimentar dos peixes e uma competição maior pelos mesmos recursos.
Os recifes de coral são como usinas de reciclagem e produção de alimento para os seres vivos locais, o que não ocorre no caso do coral do Pacífico, como alerta o pesquisador:
— Os corais promovem a reciclagem de material, como do carbonato de cálcio, que é disponibilizado novamente no ambiente e serve de alimento para uma série de organismos. Mas no caso do coral-sol, este componente é retido — explicou Creed.
Uma ameaça nacional
Apesar de ser uma ameaça maior à Ilha Grande, onde ele dominou inclusive ilhotas próximas a ela, o vilão do mar já foi documentado por cientistas em outros pontos do litoral brasileiro. De acordo com o Instituto de Biodiversidade Marinha, há registros do coral-sol na Ilha do Arvoredo, em Santa Catarina; em Guarapari, no Espírito Santo; em Arraial do Cabo e nas Ilhas Cagarras, no Rio de Janeiro; em diversas ilhas do litoral paulista, como Vitória, Alcatrazes e de Búzios. E mais recentemente, ele foi encontrado também na Baía de Todos os Santos, no litoral baiano.
Além de afetar a biodiversidade marinha, o temor de especialistas com relação à espécie é que ela chegue ao Arquipélago de Abrolhos, localizado a 70 quilômetros do município de Caravelas, na Bahia. Lá estão registrados, segundo o Ministério de Meio Ambiente (MMA), os maiores e mais ricos complexos de recifes de coral de todo o Atlântico Sul Ocidental. Além disso, no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, encontram-se todas as espécies de corais existentes no Brasil, entre eles o coral-cérebro.
O coral-sol é considerado uma espécie exótica invasora, ou seja, foi introduzida num determinado bioma pela ação humana, conseguiu se reproduzir naquele ambiente, além de se tornar uma praga local. Uma série de outras espécies marinhas são introduzidas em ecossistemas de maneira acidental, por exemplo, por aves migratórias e correntes marinhas. Quando ocorre pela ação humana, configura-se crime ambiental. A forma predominante é a água de lastro — 26% do total, segundo o MMA. Essa água é usada para estabilizar navios de cargas quando vazios. Ela é alvo de forte normatização com o objetivo de diminuir os danos ambientais. Outra é a bioincrustação (20%), que ocorre quando espécies ficam incrustadas em cascos de navios e plataformas. Sobre essa prática, praticamente não há controle.
Foco de infestação na Enseada do Bananal
Acredita-se que o foco de colonização do coral-sol tenha sido na Enseada do Bananal, na Ilha Grande, a poucos quilômetros de onde se encontram plataformas petrolíferas. Hoje, há registros da espécie próximo até de Paraty, separada por cerca de cem quilômetros da ilha.
— Ao que tudo indica, houve uma introdução pontual no Bananal. Há fotos, publicações científicas e denúncias de mergulhadores — afirmou Joel Creed, coordenador do Projeto Coral-Sol e professor do Laboratório de Ecologia Marinha da Uerj.
Como o coral vinha vencendo a batalha por território contra as espécies marinhas nativas, a ajuda teve que vir de cima. Na tentativa de controlar a dispersão do animal marinho, foi criado o Projeto Coral-Sol, sob supervisão do Instituto de Biodiversidade Marinha e da Uerj. De marretas em punho, os mergulhadores combatem a espécie invasora com as próprias mãos. O trabalho é lento e cuidadoso, mas já conseguiu retirar cem mil corais dos costões desde 2007, quando eles adquiriram licença do Ibama para a remoção.
— A retirada de corais do seu ambiente marinho configura crime ambiental. O interessante é que revertemos este raciocínio ao comprovar que a espécie estava sendo prejudicial à vida aquática. Apenas com a licença do Ibama é possível fazer este processo de remoção — explicou Creed.
Mas nem o reforço dos pesquisadores e da comunidade de Ilha Grande tem conseguido controlar a dispersão da espécie invasora.
— Nossos esforços não são suficientes pra contê-los, eles continuam a se expandir. Só para se ter ideia, a última estimativa, de cinco anos, apontou para cerca de três milhões de colônias apenas na baía — alerta a gerente do Projeto Coral-Sol, Amanda Andrade.
Atualmente sob o patrocínio da Petrobras Ambiental, o projeto ficará órfão no final do ano, quando termina o contrato com a companhia de petróleo. O governo estadual diz apoiar o projeto e ainda informa ter cedido uma espaço, localizado no Abraão, área mais urbanizada de Ilha Grande, onde funciona a sede e um pequeno museu aberto a visitantes. De acordo com a Secretaria Estadual do Ambiente, está sendo concluído um Plano de Monitoramento de Espécies Exóticas do estado, do qual fará parte um programa para controle do coral-sol.
Não é apenas este coral que afeta a biodiversidade marinha da reserva ambiental. O Projeto Coral-Sol registrou outras espécies potencialmente agressivas, como uma alga verde (Chlorophyta), uma ostra (Isognomon bicolor), um mexilhão (Myoforceps aristatus) e até um siri (Charybdis hellerii).
Educação para conter coral
Na Ilha Grande os corais não estão localizados em grandes profundidades. A maioria está a cerca de dez metros da superfície, o que facilita a remoção, que não depende de equipamento de mergulho profissional e pode ser feita pela própria comunidade. O projeto conta com 20 catadores de coral-sol, moradores da ilha, que são na sua maioria pescadores, barqueiros e estudantes. Eles recebem treinamento de biólogos para reconhecer o invasor e retirá-lo sem afetar outras espécies nativas.
O estudante Rafael Santos, de 19 anos, recebe R$ 150 por dia de coleta, que não é diária. Pois para dar viabilidade ao trabalho, são organizados mutirões periódicos. Ele mergulha há um ano e diz estar envolvido na atividade:
— Mudei muito a minha visão. Eu não via o coral como uma ameaça, hoje eu sei que ele faz mal, sei que ele está tomando o espaço do coral-cérebro — conta Rafael, que já faz planos. — Eu estou no supletivo, muito provavelmente vou cursar biologia para continuar isto que já estou fazendo.
A remoção é feita por catadores ou biólogos, enquanto que o monitoramento de dispersão é essencialmente feito por mergulhadores.
— Nós do projeto realizamos o trabalho, mas também precisamos muito do engajamento dos mergulhadores, sobretudo para denúncias de novos focos — afirmou Creed.
Outra licença recém-adquirida pelo projeto é a de comercialização do coral, também uma medida inédita do Ibama. Desta forma, além de agregar a comunidade na retirada dos animais marinhos, eles também poderão virar artesanato. Hoje, o esqueleto do coral, que fica branco depois de morto, é vendido na sede. Mas a ideia é agregar valor a ele, revertendo a lógica do comércio ilegal de corais.
Esta iniciativa está ainda embrionária, e a educadora ambiental do projeto, a bióloga Camila Meireles, é quem percorre, casa por casa, toda a Ilha Grande, tentando reunir artesãos à nova proposta. No Bananal, ela visitava a dona-de-casa Ledinéia da Conceição, de 39 anos.
— Eu vou fazer um abajur com este coral — imaginava a moradora que tem três filhos.
O principal desafio de Camila é, na verdade, explicar sobre o invasor, que está se tornando popular entre os moradores.
— Eu faço associações. Por exemplo, há um tempo atrás, houve uma infestação do caramujo africano, que invadia hortas e jardins. Eles entendiam que a espécie era nociva para o nosso ambiente, da mesma forma que o coral-sol é prejudicial para o fundo do mar. É um trabalho lento de convencimento, mas essencial para a manutenção do programa — disse a bióloga.
Trajeto perigoso na Bahia
O litoral brasileiro já perdeu 80% de seus recifes de coral nos últimos 50 anos devido à extração, à poluição ambiental e às mudanças climáticas, segundo o relatório “Monitoramento de recifes de corais do Brasil”, divulgado este ano pelo Ministério do Meio Ambiente. Além destes fatores, a competição com espécies exóticas invasoras também representa um risco de diminuição dos corais nativos. Só do coral-sol, foram identificados mais 200 pontos de ocorrência no Brasil.
Em 2007, houve a primeira notificação oficial de que ele tinha atingido a Baía de Todos os Santos, na Bahia. O registro ocorreu num popular naufrágio, o Cavo Artemidi — a 21 metros de profundidade e a 6,5 quilômetros do Farol da Barra, em Salvador —, local muito procurado por mergulhadores mais experientes. Diferentemente de Ilha Grande, ali a profundidade dificulta o controle da espécie.
— Visitamos o naufrágio recentemente, e ele está bastante infestado, talvez em torno de 40% da embarcação — informou a professora do Instituto de Biologia da UFBA, Carla Menegola, colaboradora do Projeto Coral-Sol. — Como ele está na ponta da baía, quase em mar aberto, nosso receio é que venha a dispersar suas larvas, tanto para o interior de Salvador, como, por exemplo, para o Arquipélago de Abrolhos, o que seria um desastre.
— Ali há espécies endêmicas, que só ocorrem aqui no Brasil. Abrolhos sustentam uma vida marinha muito intensa, são um ambiente ainda virgem, sem poluição, usado para se estudar as relações ecológicas como ocorrem de fato no oceano — exemplifica.
Na região, o coral também foi notado no Recife dos Cascos e na Marina de Itaparica. Por enquanto, a retirada só pode ser feita visando à pesquisa e em pequena escala, já que o Ibama ainda não emitiu licença para a remoção. Eles estão em fase de capacitação de mergulhadores e de formação de parcerias.
Queda de braço debaixo d’água
O controle e prevenção de espécies marinhas invasoras habitualmente esbarra em controvérsias, já que há pouca regulação e a maioria das formas de introdução está associada a atividades com importância econômica, como a pesca, a distribuição de mercadorias ou a produção de petróleo. Entre elas, duas formas relacionadas ao transporte marítimo são potencialmente preocupantes: a água de lastro e a bioinscrustação. No caso da Ilha Grande, o próprio coral-sol, cuja introdução se deu por plataformas na década de 1980, foi um dos protagonistas de uma polêmica recente envolvendo atores políticos e também do mercado petrolífero.
Dez meses após o anúncio, a criação da Área de Proteção Ambiental Marinha da Baía da Ilha Grande (APA) pelo governo estadual não saiu do papel. Lançado na esteira de um acidente ambiental em dezembro de 2011 — no qual dez mil litros de óleo foram despejados na baía durante um erro na troca da água de lastro —, o projeto tinha como objetivo aumentar o controle de tráfego e operação de embarcações na região. Sobre sua não conclusão, o secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc, justifica:
— O negócio da APA ficou sem clima.
O secretário explica ter acabado sem apoio para a criação da APA após a negativa do governo para o projeto de duplicação do Terminal Marítimo da Baía de Ilha Grande (Tebig), controlado pela Transpetro, subsidiária da Petrobras. O veto ocorreu em maio, sob a alegação, entre outras, do risco de introdução e dispersão de espécies marinhas exóticas.
— O maior projeto econômico de Angra dos Reis é a duplicação do Tebig, mas ele já está a dois quilômetros da Ilha Grande, e entendemos que sua expansão poderia causar prejuízos ambientais ao local. A negação gerou manifestação da prefeitura, dos jornais locais, eu fui xingado, o secretário de pesca levou ovo, mas mantivemos a posição — defende-se Minc. — Um dos argumentos foi o aumento do número de embarcações, o que significaria a possibilidade de espécies invasoras, e mencionamos no relatório a preocupação com o coral-sol.
Mesmo com a polêmica, Minc garante que a “APA vai sair”, mas não define prazo. Segundo ele, seria a primeira APA marinha do estado, e cujo plano de manejo estabeleceria normas, como locais permitidos para ancoramento, inspeções sanitárias, verificação das regras da água de lastro e controle da bioincrustação.
— Temos três baías. Guanabara e Sepetiba já estão detonadas, a da Ilha Grande é disparadamente a melhor de todas. A APA marinha ia pegar só a parte do mar, onde não temos tanto controle — afirma Minc, ao ser questionado sobre a necessidade de criação de mais uma unidade de conservação na área, que já abriga o Parque Estadual da Ilha Grande e a APA de Tamoios, só para citar as principais.
Regulação fraca contra invasões
Diferentemente da água de lastro, que já sofre grande pressão de normas internacionais, não há qualquer regulamentação sobre a bioincrustação, tema relativamente novo das rodas ambientais. Neste processo, organismos vivos, sobretudo os corais, ficam agarrados a cascos de navios e a estruturas de plataformas, embarcações que percorrem grandes distâncias nos oceanos, transportando essas espécies para biomas totalmente diferentes dos seus. Sem um predador natural, elas acabam proliferando e até competindo com espécies nativas. Segundo um levantamento citado pela professora Andrea Junqueira, do Departamento de Biologia Marinha da UFRJ, estima-se que de 55% a 69% das 1.780 espécies exóticas detectadas em portos no mundo foram introduzidas por bioincrustação.
— Havia uma tinta que os leigos chamavam de “envenenada”, porque impedia a incrustação, que não interessa em nada ao navio, pois aumenta o atrito e o consumo de combustível. Mesmo assim, havia incrustação em áreas não pintadas. Porém, nos anos 2000, ela foi banida, pois causava anomalias em algumas espécies. Para piorar, hoje se explora petróleo em águas profundas, o que dificulta a limpeza. E a tecnologia para limpar o casco das embarcações não evoluiu como a de exploração do óleo — explica Andrea.
Ela cobra normas internacionais consistentes para o setor:
— Todo vetor de introdução tem que ser gerenciado mundialmente, não adianta um país só adotar uma medida muito rígida. E não existe ainda hoje nada global sobre a bioincrustação. O que existe são medidas de alguns países, como Austrália e Nova Zelândia, com ações preventivas e voluntárias.
Como parte de um licenciamento ambiental para perfuração marítima, a Petrobras realizou este ano o primeiro seminário para discutir a bioincrustação, do qual participaram representantes de unidades de conservação e pesquisadores, entre eles, os envolvidos no combate ao coral-sol. Visando ao controle da bioinvasão, a Petrobras diz participar de fóruns internacionais e informa investir em ações de prevenção, como no desenvolvimento de novas tecnologias, junto de órgãos, como o Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira, da Marinha. Ela não informa, entretanto, quanto gasta na prática.
Enquanto a questão da bioincrustação permanece no âmbito das discussões, a água de lastro já é uma preocupação mais antiga, e a principal regra é que a troca da água seja realizada em alto-mar e não próximo à costa, onde pode afetar sua biodiversidade. O transporte marítimo movimenta mais de 80% das mercadorias e transfere internacionalmente entre 3 e 5 bilhões de toneladas de água de lastro por ano. Estima-se que já tenha provocado a movimentação de pelo menos sete mil espécies entre diferentes regiões, causando alterações em ecossistemas. Nos Estados Unidos, por exemplo, o mexilhão-zebra europeu Dreissena polymorpha infestou 40% das vias navegáveis e já exigiu entre US$ 750 milhões e US$ 1 bilhão em gastos com medidas de controle, entre 1989 e 2000.
A Organização Marítima Internacional (OMI), agência especializada da ONU, promoveu entre 2000 e 2004 uma convenção sobre o controle da água de lastro, da qual fazem parte 36 países, entre eles o Brasil, o que agrega 29% do mercado marítimo mundial. Sobre a bioincrustação, a agência informou ter um “esboço” de diretrizes do seu controle por meio do Comitê de Proteção de Biodiversidade Marinha. Elas podem ser aprovadas ainda este mês.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Panda serviu de alimento para homem pré-histórico

Resultados de escavações mostram que os ursos eram menores do que são hoje


Animais eram menores na pré-história e serviam de alimento para o homem
Foto: Reuters
Animais eram menores na pré-história e serviam de alimento para o homemREUTERS
Os primeiros humanos costumavam se alimentar de pandas, afirmou o cientista chinês Wei Guangbiao.
De acordo com Wei, chefe do “Institute of Three Gorges Paleoanthropology”, do “Chongqing museum”, fósseis encontrados em escavações mostram que os ursos eram menores do que são hoje e indicam que os pandas foram mortos em grande escala pelo homem.
— Nos tempos primitivos, as pessoas não matavam os animais que eram inúteis para elas — afirmou Wei, que sugere que os animais eram consumidos como alimento pelos homens.
O cientista disse ainda que os pandas selvagens viviam em altas montanhas em Chongqing, oeste da China.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Neo-alquimia: bactéria produz ouro artisticamente


Redação do Site Inovação Tecnológica - 15/10/2012
Neo-alquimia: bactéria produz ouro artisticamente
A obra, que é meio arte e meio experimento científico, chama-se "O Grande Trabalho do Amante dos Metais".[Imagem: G.L. Kohuth/MSU]

Biomineração
A biomineração consiste no uso de microrganismos, sobretudo bactérias, para extrair metais, eventualmente substituindo os complicados e caros processos da mineração tradicional.
Kazem Kashefi e Adam Brown, da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, decidiram fazer uma demonstração das capacidades da biomineração que tivesse um maior impacto.
Kashefi é professor de microbiologia e genética molecular. Brown é artista, segundo ele especializado em "intermídias".
Os dois se juntaram para criar um aparato que é parte experimento, parte divulgação científica e parte obra de arte.
Mas tudo funciona de acordo com o primeiro pressuposto - trata-se de um experimento científico real.

Alquimia microbiana
A parte que atrai e impressiona é que o aparelho recebe um composto químico natural extremamente tóxico - o cloreto de ouro - e produz ouro metálico puro.
"O que nós estamos fazendo é alquimia microbiana - produzindo ouro, transformando algo que não tem valor em um metal precioso sólido," disse Kashefi.

Neo-alquimia: bactéria produz ouro artisticamente
Grãos de ouro sintetizados pelas bactérias no interior do reator. [Imagem: G.L. Kohuth/MSU]
 
O trabalho pesado é feito pela bactéria Cupriavidus metallidurans, que serve também para reter metais pesados de ambientes contaminados.
A peça de arte, que está em exposição na Universidade, é um laboratório portátil.
Ele consiste em um biorreator de vidro, onde a bactéria cresce no tóxico cloreto de ouro. Para impressionar, e dar o tom artístico, o aparato inteiro passou por um processo de douração.

Neo-alquimia
A obra contém ainda uma série de imagens feitas com um microscópio eletrônico de varredura.
Usando antigas técnicas de iluminação, os cientistas aplicaram folhas de ouro 24 quilates sobre as imagens das bactérias onde o microscópio detectou a sintetização de ouro sólido, de modo que cada impressão contém parte do ouro produzido no biorreator.
"Isto é neo-alquimia. Cada peça, cada detalhe do projeto é um cruzamento entre a microbiologia moderna e a alquimia," disse Brown. "A ciência tenta explicar o mundo fenomenologicamente. Como artista, eu estou tentando criar um fenômeno. A arte tem a capacidade de impulsionar a investigação científica."

Interesses econômicos
Com a cotação do ouro no seu pico histórico, a demonstração fez brilhar também os olhos de alguns homo economicus.
Infelizmente o processo não é eficiente o bastante para virar uma fábrica real.
Outras equipes estão usando a biologia sintética para fazer alterações genéticas nas bactérias, de forma que elas se concentrem menos no show e mais no trabalho, produzindo mais ouro, assim como outros metais.

domingo, 14 de outubro de 2012

Geoquímico russo quer reconstituir o berço da vida

 





Kamchatka gêiseres

RIA Novosti

Um grupo de geoquímicos russos do Extremo Oriente faz uma tentativa de dar vida a uma substância inanimada.

Os cientistas pretendem ressuscitar no laboratório o meio de fontes termais da península de Kamchatka, que podiam servir, na sua opinião, na qualidade de berço da vida.
Os cientistas do Instituto da Análise Geral de Problemas Regionais junto da filial da Academia de Ciências Russa no Extremo Oriente fazem experiência com uma substância orgânica que se encontra dentro da solução submetida a elevadas temperaturas e pressões. O autor do programa de pesquisas Vladimir Kompanitchenko ressaltou na sua entrevista à imprensa que a evolução química não pode transformar-se em evolução biológica sem um certo estresse. – Por outras palavras, uma determinada combinação da temperatura e da pressão pode fazer que na matéria inanimada surja a vida. O cientista chegou a esta conclusão depois de estudar as bactérias termófilas na península de Kamchatka. Agora é preciso reconstituir num laboratório o berço geotermal da vida.
Os especialistas consideram a experiência de geoquímicos do Extremo Oriente interessante, pois se trata de mais uma tentativa de explicar o surgimento da vida na Terra. Todavia muitos cientistas encaram com ceticismo os resultados desta experiência. O biofísico Valentin Sapunov, membro efetivo da Academia de Ciências, reputa que é pouco provável que esta experiência permita sintetizar a vida.
"Em primeiro lugar, não sabemos até hoje, o que é o vivo, não temos definições unívocas do que é vivo, nem compreendemos, como se deu o salto do inanimado para vivo. Dada a ausência do paradigma e da teoria, o mais provável que a experiência não surta nenhum efeito. É praticamente impossível criar uma estrutura como gene ou ADN mediante combinações casuais."
Agora numerosos cientistas inclinam-se para a idéia de que a vida teria vindo para a Terra do Espaço Cósmico, - faz lembrar Valentin Sapunov. – Entre os adeptos desta versão de surgimento da vida pode-se mencionar, por exemplo, o laureado do prêmio Nobel de química Svante August Arrhenius e o autor da ciência de noosfera Vladimir Vernadski, fundador da biogequpimica russa.
Aliás, muitos cientistas são adeptos de uma outra teoria de origem de vida – da teoria vulcânica. Ela foi formulada pela primeira vez há cerca de 40 anos pelo vulcanólogo russo Evgueni Markhinin. Agora ela é desenvolvida por cientistas do Instituto Nacional de Saúde dos EUA que trabalha sob a direção do cientista russo Evgueni Kunin. Eles consideram que os primeiros organismos vivos surgiram nas águas dos lagos, a que as fontes geotermais dos vulcões proporcionavam o calor e os microelementos.
A julgar por tudo, o grupo científico, dirigido por Vladimir Kompanitchenko, tem como base a hipótese do biólogo soviético Alexander Oparin. De acordo com esta teoria, criada em 1924, a vida nasceu no chamado caldo primário, que tinha se formado sob a influência de descargas elétricas, elevadas temperaturas e irradiação cósmica. Supõe-se que ele existia nas águas da Terra há quatro milhões de anos. Este “caldo de vida” é constituído por aminoácidos e polipeptídios. A composição das águas dos gêiseres da península de Kamchatka é afim a este meio, - reputa Kompanitchenko.
Esta hipótese não deixa de ter um grão racional, - afirma Andrei Bytchkov, livre-docente da cadeia de geoquímica da faculdade de geologia da Universidade Estatal de Moscou. Ele acha que os processos endógenos, isto é, processos relacionados à energia do subsolo, podem estimular o surgimento da vida. Mas na sua opinião, é difícil de garantir a pureza da experiência no sentido textual desta palavra.
"Sabemos que sob o ponto de vista a geoquímica a vida na Terra surgiu muito cedo. Daí vem que ela deve estar obrigatoriamente relacionada aos processos endógenos básicos – o vulcanismo e hidrotermas. Não podemos afirmar com certeza que num certo volume de solução ou de rocha a vida não existe, que não existe nada que fosse herdado da vida de hoje. Creio, portanto, que a questão de surgimento de vida é muito complicada."
Falando a propósito, já foram realizadas experiências destinadas a imitar o meio aquático e a atmosfera da Terra nos primeiros anos da sua existência. Descaras elétricas foram feitas nos recipientes cheios de metano e de outros gases. Alguns meses depois do início da experiência neste meio realmente surgiram várias moléculas orgânicas. Mas jamais foi obtida uma célula. Portanto, não houve a vida animada.