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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Primeira evidência biológica de uma supernova

Encontram pela primeira vez na Terra evidência biológica de uma supernova

Encontram pela primeira vez na Terra evidência biológica de uma supernova
Carl Sagan tinha muita razão quando afirmou que "parte de nós sabe de onde viemos. Almejamos voltar. E podemos. Porque o cosmos também está dentro de nós. Somos pó de estrelas. Somos o meio para que o Cosmos se conheça a si mesmo".

Pois se ainda restavam dúvidas com respeito a esta afirmação, agora uma equipe de cientistas da Universidade Técnica de Munique descobriu pela primeira vez evidência biológica de uma supernova na Terra.

Ao recolher sedimentos do leito oceânico no Pacífico, os pesquisadores encontraram restos de ferro-60  -um isótopo radioativo de ferro que é produzido quase que exclusivamente no interior de uma estrela quando está por se transformar em uma supernova- no interior de fósseis de microorganismos de 2,2 milhões de anos de antiguidade.

Já que a vida média do ferro-60 é 2,62 milhões de anos, a única explicação razoável é que uma supernova próxima à Terra explodiu e caíram restos da estrela ricos em ferro sobre nosso planeta, os quais afundaram no oceano onde foram consumidos pelas bactérias.

Os restos do isótopo eram tão pequenos que os cientistas alemães tiveram que realizar uma espectrometria de massas com aceleradores de partículas para detectá-lo, e agora que comprovaram a utilidade do método, os pesquisadores planejam buscar outras marcas de explosões de supernova no interior de microorganismos no sedimento do leito oceânico.

domingo, 28 de abril de 2013

'Religião não é fonte da moral, mas eliminá-la é temerário', diz primatólogo


REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Para alguém que tem se especializado em demonstrar que o ser humano e os demais primatas têm um lado pacífico e bondoso por natureza, Frans de Waal conseguiu comprar briga com muita gente diferente.
Autor de "The Bonobo and the Atheist" ("O Bonobo e o Ateu"), que acaba de sair nos Estados Unidos, o primatólogo holandês-americano provavelmente não agradará muitos religiosos ao argumentar que ninguém precisa de Deus para ser bom.
Seu modelo de virtude? O bonobo (Pan paniscus), um primo-irmão dos chimpanzés conhecido pela capacidade de empatia com membros de sua espécie e de outras, pela sociedade tolerante, sem "guerras", e pelo uso do sexo para resolver conflitos.
Com base nos estudos com grandes macacos e outros mamíferos sociais, como cetáceos e elefantes, De Waal diz que a moralidade não surgiu por meio de argumentos racionais nem graças a leis ditadas por Deus, mas deriva de emoções que compartilhamos com essas espécies.
Bonobos e chimpanzés sabem que é seu dever cuidar de um amigo doente, retribuir um favor ou pedir desculpas.
Por outro lado, o livro é uma crítica aos Novos Ateus, grupo capitaneado pelo britânico Richard Dawkins que tem dado novo impulso ao conflito entre ateísmo e religião desde a última década.
"Eu não consigo entender por que um ateu deveria agir de modo messiânico como eles", diz De Waal, ateu e ex-católico. "O inimigo não é a religião, é o dogmatismo."
*
Folha - Quem está mais bravo com o sr. depois da publicação do livro?
Frans de Waal - Bem, no caso dos ateus, recebi muitas mensagens de gente que me apoia. É claro que, em certo sentido, estou do lado deles, tanto por também ser ateu quanto por acreditar que a fonte da moralidade não é a religião. O que eu digo no livro é que os Novos Ateus estavam gritando alto demais e que precisam se acalmar um pouco, porque a estratégia deles não é a melhor.
Em seu livro, o sr. faz uma referência ao romance "O Senhor das Moscas", de William Golding, história na qual garotos perdidos numa ilha reinventam vários aspectos da sociedade, inclusive a religião. Mas a religião que eles criam é brutal, com sacrifícios humanos. O sr. acha que a religião nasceu brutal e foi ficando mais humanizada?
Acho que não. Quando olhamos para as sociedades tradicionais de pequena escala, que foram a regra na pré-história, vemos que esse tipo de coisa não está presente entre elas.
É claro que elas tinham crenças sobre o mundo sobrenatural e podiam sacrificar um ou outro animal aos deuses, mas, no geral, eram relativamente benignas.
É só quando as sociedades aumentam de escala que elas começam a se tornar mais agressivas e dogmáticas.
Quando se enfatiza o lado pacífico e ético das sociedades de primatas não humanos e do próprio homem, não há um perigo de fechar os olhos para a faceta violenta dela?
Concordo que, nos meus livros mais recentes, essa ênfase existe. Por outro lado, meu primeiro livro, "Chimpanzee Politics" ["Política Chimpanzé", sem tradução no Brasil], era totalmente focado na violência, na manipulação maquiavélica e em outros aspectos pouco agradáveis da sociedade primata. Mas a questão é que surgiu uma ênfase exagerada nesses aspectos negativos, e as pessoas não estavam ouvindo o outro lado da história.
O sr. acha que encontrar um chimpanzé ou bonobo cara a cara pela primeira vez pode funcionar como uma experiência religiosa ou espiritual?
Eu não chamaria de experiência religiosa (risos), mas é uma experiência que muda a sua percepção da vida.
No livro, conto como a chegada dos primeiros grandes macacos vivos à Europa no final do século 19 despertou reações fortes, em vários casos deixando o público revoltado porque havia essa ideia confortável da separação entre seres humanos e animais. Por outro lado, gente como Darwin viu aquela experiência como algo positivo.
E o sr. sente que essa aversão aos grandes macacos diminuiu hoje?
Sim, e isso é muito interessante. Eu costumo dar palestras em reuniões de sociedades zoológicas de grandes cidades aqui nos Estados Unidos. Tenho certeza de que muitas pessoas ali são religiosas. E esse público é fascinado pelos paralelos e pelas semelhanças entre seres humanos e grandes macacos ou outros animais.
Isso não significa que queiram saber mais sobre a teoria da evolução, mas elas acolhem a conexão entre pessoas e animais.
Na sua nova obra, o sr. defende a ideia de que não se pode simplesmente eliminar a religião da vida humana sem colocar outra coisa no lugar dela. Que outra coisa seria essa?
É preciso reconhecer que os seres humanos têm forte tendência a acreditar em entidades sobrenaturais e a seguir líderes. E o que nós vimos, em especial no caso do comunismo, no qual houve um esforço para eliminar a religião, é que essa tendência acaba sendo preenchida por outro tipo de fé, que se torna tão dogmática quanto a fé religiosa.
Então, o temor que eu tenho é que, se a religião for eliminada, ela seja substituída por algo muito pior. Acho preferível que as religiões sejam adaptadas à sociedade moderna.
Outro argumento do livro é que o menos importante nas religiões é a base factual delas. O mais relevante seria o papel social e emocional dos rituais. Para quem é religioso e se importa com a verdade do que acredita, não é uma visão que pode soar como condescendente ou desonesta?
Pode ser que, para quem é religioso, essa visão trivialize suas crenças. Mas, como biólogo, quando vejo alguma coisa que parece existir em quase todos os grupos de uma espécie, a minha pergunta é: para que serve? Que benefício as pessoas obtêm com isso? Não tenho a intenção de insultar ninguém com esse enfoque.

The Bonobo and the Atheist
editora W.W. Norton & Company
preço R$ 29,35 (e-book na Amazon.com), 313 págs.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Um show de imagens ‘nebulosas’



Blog Observatório
por Cássio Barbosa


Qual será o futuro do Sol? O que deve acontecer com ele daqui a uns 5 bilhões de anos?
A evolução de uma estrela é ditada pela quantidade de massa que ela possui. Estrelas com pouca massa, como o nosso Sol por exemplo, devem transformar hidrogênio em hélio durante bilhões de anos.
Quando o reservatório de hidrogênio de uma estrela dessas se esgota, ela se torna uma gigante vermelha, expele suas camadas exteriores, e seu núcleo se contrai em uma anã branca. Para o nosso Sol, esse processo todo deve levar 10 bilhões de anos, mais ou menos. Como ele já viveu 5 bilhões de anos, ainda terá outros 5 bilhões de vida.

Estrelas com mais massa que o Sol, umas 10 vezes mais pelo menos, devem evoluir muito mais rápido, em escalas de tempo da ordem de milhões de anos. Nas fases finais, acabam explodindo em supernovas e podem terminar a vida como uma estrela de nêutrons ou um buraco negro.
Quando uma estrela do tipo do Sol chega à fase de gigante vermelha, suas camadas exteriores são lançadas ao espaço, e o núcleo se contrai em uma anã branca que produz um vento intenso. Esse vento é responsável por  “esculpir” o gás ejetado da gigante vermelha, formando imagens fantásticas. Essas são as nebulosas planetárias.
Algumas das nebulosas mais famosas e bonitas foram agora estudadas pelo telescópio espacial Chandra, que observa em raios X. A ideia desse projeto da Nasa é observar a emissão de raios X  causada pelas ondas de choque que surgem da colisão do vento rápido da anã branca com o gás ejetado durante a fase de gigante vermelha.
Os resultados do estudo revelam que as nebulosas que têm emissão difusa de raios X mostram estruturas esféricas, com a borda estreita e bem definida – tudo rodeado por halos pouco brilhantes, isso nas imagens ópticas. Todas as estruturas esféricas parecem ter menos de 5 mil anos, o que representa mais ou menos a escala de tempo para o vento começar a produzi-las. Uma nebulosa dessas deve ser o destino final do nosso Sol.
Adicionalmente, quase metade das nebulosas planetárias desse estudo possuem fontes pontuais emitindo em raios X, bem no centro. Entretanto, dentre todas as 21 nebulosas observadas, 20 parecem ter uma fonte central dupla, ou seja, a maior parte das estrelas que ejetam suas partes externas e criam nebulosas planetárias deve ter uma companheira.
As quatro nebulosas da foto deste post foram observadas pelo Hubble e pelo Chandra, e suas imagens foram combinadas para produzir uma imagem composta. As observações ópticas, feitas pelo Hubble, estão representadas pelas cores vermelho, verde e azul, já a emissão em raios X, detectada pelo Chandra, está em rosa.
 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Panda serviu de alimento para homem pré-histórico

Resultados de escavações mostram que os ursos eram menores do que são hoje


Animais eram menores na pré-história e serviam de alimento para o homem
Foto: Reuters
Animais eram menores na pré-história e serviam de alimento para o homemREUTERS
Os primeiros humanos costumavam se alimentar de pandas, afirmou o cientista chinês Wei Guangbiao.
De acordo com Wei, chefe do “Institute of Three Gorges Paleoanthropology”, do “Chongqing museum”, fósseis encontrados em escavações mostram que os ursos eram menores do que são hoje e indicam que os pandas foram mortos em grande escala pelo homem.
— Nos tempos primitivos, as pessoas não matavam os animais que eram inúteis para elas — afirmou Wei, que sugere que os animais eram consumidos como alimento pelos homens.
O cientista disse ainda que os pandas selvagens viviam em altas montanhas em Chongqing, oeste da China.

domingo, 30 de setembro de 2012

À sombra de Darwin, Alfred Russel Wallace recebe o devido reconhecimento


IAN SAMPLE
DO "GUARDIAN"

Alfred Russel Wallace (1823-1913) chegou a Cingapura em 1854 com um plano simples. Pesquisaria a fauna da região e enviaria espécimes de volta a Londres para venda a museus e colecionadores ricos. Sua segurança financeira dependia de espécimes exóticos estrangeiros, uma categoria de produto pela qual os britânicos da era vitoriana pareciam sentir apetite insaciável.

Alfred Russel Wallace

Reprodução
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O naturalista britânico Alfred Russel Wallace aos 24 anos
O naturalista britânico recolheu milhares de insetos e pássaros durante os oito anos que passou no sudeste da Ásia. E ainda que as estranhas criaturas de Wallace tenham encontrado compradores dispostos a pagar bom preço em seu país, o valor da coleção provou ser mais que monetário. Ao estudar cuidadosamente os animais, Wallace acabou por fazer uma das grandes descobertas científicas da história: a teoria da evolução por seleção natural.
O trabalho de Wallace quanto a essa teoria, bem como suas percepções reveladoras sobre a biodiversidade, está descrito em milhares de páginas de livros, artigos, desenhos e pinturas, que hoje estão sendo apresentados de forma integrada pela primeira vez em um projeto on-line comandado por John van Wyhe, historiador na Universidade Nacional de Cingapura. O projeto Wallace On-line foi bancado por um doador anônimo norte-americano, e está sendo lançado pouco antes do centenário da morte do cientista, que ocorrerá no ano que vem.
As publicações de Wallace estavam distribuídas entre milhares de revistas e jornais e jamais haviam sido reunidas em uma coleção unificada. O projeto apresenta 28 mil páginas de documentos abertos a buscas e 22 mil imagens. Entre elas há fotos deslumbrantes de plantas carnívoras, de irenidae asiáticos --pássaros com pelagem preta e azul celeste-- com e desenhos meticulosos de borboletas e besouros.
Van Wyhe, que comandou um projeto semelhante com o trabalho de Darwin anos atrás, disse que a coleção de Wallace tem por objetivo servir como fonte confiável de informação sobre o naturalista cujo nome terminou completamente eclipsado pelo de Darwin. "Era preciso fazer justiça a Wallace. Ele é muito menos conhecido que Darwin, e já é mais que hora que as pessoas tenham acesso confiável ao seu trabalho", disse Van Wyhe.

RESPEITO MERECIDO
A história da ciência está repleta de nomes que não recebem o respeito merecido, mas o caso de Wallace é extremo. Em julho de 1858, os primeiros estudos sobre seleção natural foram lidos para a audiência na Linnean Society, de Londres --um de Darwin, um de Wallace. Ainda que os dois cientistas tenham anunciado a teoria ao mesmo tempo, a publicação do trabalho de Darwin, "A Origem das Espécies", lançado no ano seguinte, foi a semente da revolução, e atraiu a atenção dos cientistas renomados da era.
O livro não foi o único fator. A modéstia vitoriana influenciou em certa medida a posição discreta que Wallace conquistou na história, acompanhada por certa deferência pelo que ele, um homem pobre e de origens humildes, via como grandes figuras da ciência.
"Os vitorianos se esforçavam demais para superar os outros em modéstia. Modéstia era uma das grandes virtudes. Por isso Wallace, desde o começo, se referiu ao trabalho como a teoria de Darwin, e persistiu em fazê-lo até o final de sua vida", disse Van Wyhe.
A partir de 1855, Wallace publicou uma série de artigos que se aproximavam mais e mais de declarar uma teoria de evolução via seleção natural. Em meio a um surto de febre malárica na ilha tropical de Ternate, Indonésia, ele teve um momento de clareza, uma percepção de que muitos nascem, muitos morrem, e apenas alguns sobrevivem.
Enviou um ensaio escrito na ilha a Darwin, que o repassou ao grande geólogo Charles Lyell, o qual propôs que o estudo fosse lido diante da Linnean Society em companhia de um ensaio de Darwin.
"É uma das grandes ironias da história. Wallace enviou seu ensaio ao único homem do planeta que estava trabalhando na mesma ideia há 20 anos. E Darwin, sendo outro perfeito cavalheiro, repassou o estudo a Lyell, o que resultou na decisão de publicar os estudos oferecidos pelos dois pesquisadores", diz Van Wyhe.
A abrangente pesquisa de Wallace sobre a fauna levou a uma nova revelação científica em 1859, hoje conhecida como a linha Wallace. Ele percebeu que as espécies de cada lado de uma linha invisível que separa Austrália e Ásia eram substancialmente diferentes, a despeito de sua estreita proximidade geográfica. A observação conflitava com o pensamento da era, de que as espécies eram criadas para seu ambiente específicos.
Wallace propôs a hipótese de que os animais tinham vindo de suas antigas massas terrestres mais amplas, uma Super Ásia e uma Super Austrália, grande parte das quais posteriormente submergiu nos oceanos. "Ele não tinha como imaginar as placas tectônicas, que representam a verdadeira solução, ou que a Austrália surgiu na América do Sul", disse Van Wyhe.

COMIDA
Entre os demais escritos de Wallace há anotações sobre as culinárias dos locais em que viveu. Em uma passagem sobre o durião, Wallace descreve essa grande fruta, do tamanho de um coco e dotada de espinhos curtos, causadora de grandes ferimentos ao cair das árvores e atingir os caminhantes incautos.
"Se levada para dentro de casa, seu cheiro é tão repulsivo que há pessoas que não conseguem se forçar a prová-la. Foi o que aconteceu comigo em minha primeira tentativa, em Malaca [na Malásia], mas em Bornéu eu encontrei um durião maduro caído no chão e o comi ao ar livre, o que logo me tornou adepto do durião", ele escreveu.
Tendo declarado que era quase impossível descrever o sabor da fruta, ele tenta falando em "um molho doce e denso como manteiga, com um toque de amêndoa, serve como melhor indicação, mas há outros sabores que se pode sentir --queijo cremoso, molho de cebola, xerez e outras incongruências".
Em outros de seus estudos, Wallace lamenta o ritmo de extinção forçada de diversas espécies, e faz um dos primeiros apelos pela conservação ecológica. Compara as espécies a cartas que compõem os volumes da história do planeta, e afirma que sua perda significa erradicar um registro inestimável sobre o passado.
"As eras futuras certamente nos verão como pessoas tão imersas na busca de riqueza que nos cegamos quanto a considerações mais elevadas", ele escreveu em um ensaio redigido no arquipélago malaio, em 1863.

domingo, 23 de setembro de 2012

DNA revela que bosquímanos são descendentes de primeiros humanos


Foram avaliados genomas de 220 pessoas de 11 diferentes populações subsaarianas, no maior estudo do tipo já feito na África. Linguista já havia levantado a hipótese nos anos 60

Javier Sampedro
Do El País

Um homem da tribo San, da África do Sul: estudo genético confirma que se trata do grupo mais antigo, descendente direto dos primeiros humanos modernos
Foto: Latinstock
Um homem da tribo San, da África do Sul: estudo genético confirma que se trata do grupo mais antigo, descendente direto dos primeiros humanos modernos Latinstock
O genoma de 220 pessoas de 11 diferentes populações subsaarianas — o maior estudo do tipo já feito na África — comprovou que os bosquímanos San descendem em linha direta dos primeiros seres humanos modernos, que evoluíram no Sul do continente africano há mais de 100 mil anos. O trabalho identifica os seis genes considerados chave para o desenvolvimento do crânio e do cérebro que foram objeto de seleção darwiniana na época e que, provavelmente, criaram a anatomia humana moderna num período relativamente curto.
Outros fenômenos genéticos posteriores embasam as adaptações de determinadas populações a um ou outro ambiente, e afetam a potência muscular, a proteção contra a radiação ultravioleta — e a cor da pele — e a resposta imunológica a novas infecções.
Os bosquímanos falam as chamadas línguas estaladas, em que as consoantes soam como estalidos feitos com a língua ou beijinhos. De fato, o primeiro pesquisador a sugerir que os San e outros bosquímanos representavam a população ancestral da Humanidade moderna não foi um geneticista, mas sim um linguista: Joseph Greenberg, da Universidade de Stanford, que propôs, nos anos 60, que as línguas estaladas, faladas por pequenas populações de bosquímanos espalhadas pelo Sul e Leste da África, formavam, na verdade, uma única família linguística, a khoisan.
Mas é a genética, e também a recente arqueologia, que acabou por resgatar a hipótese de Greenberg do esquecimento total, iniciado logo após a sua formulação. O grande linguista e antropólogo morreu em 2001, muito antes de ver comprovadas as suas teorias.
O novo trabalho é produto de uma colaboração entre biólogos evolutivos, antropólogos, neurocientistas e geneticistas, coordenados por Himla Soodyall, da Universidade de Witwatersrand, em Johanesburgo, e Mattias Jakobsson, da Universidade de Uppsala, na Suécia. Os resultados foram apresentados na “Science”.
— Os San têm algo especial a acrescentar ao mundo, tanto geneticamente quanto cultural e eticamente — afirmou Jakobbson, justificando seu trabalho. — A importância do nosso estudo é que ele coloca o patrimônio San no lugar devido da História e também aporta dados genéticos para estudos futuros.
Os pesquisadores analisaram 2,3 milhões de snips (acrônimo em inglês para “single nucleotide polymorphisms” ou polimorfismos de um só nucleotídeo), que são variações de apenas uma letra na sequência do DNA (o genoma humano tem cerca de 3 bilhões de letras). Os cientistas compararam essas variações em 200 indivíduos de 11 populações da parte Sul do continente, a maioria falante das línguas estaladas, do grupo khoisan. Trata-se da maior massa de informação genética sobre as populações subsaarianas já obtida até hoje.
— A divergência mais profunda de toda a Humanidade atual ocorreu há uns 100 mil anos — afirmou a pesquisadora Carina Schlebusch, de Uppsala, em referência à separação genética entre os San e o restante da população do planeta, incluída aí a imensa maioria da população africana. — Essa data é anterior à migração dos humanos modernos para fora da África (há cerca de 60 mil anos) e duas vezes mais antiga que o tempo de divergência entre os pigmeus da África central e os caçadores-coletores do Leste.
Quando duas populações se separaram, geneticamente, há pouco tempo, como as do Oriente próximo e do Mediterrâneo ocidental, seus genomas são muito parecidos, ou seja, mostram pouquíssima divergência. Quanto maior a divergência, mais antiga foi a separação. Reunindo muitos dados desse tipo, geneticistas conseguiram reconstruir um mapa surpreendentemente detalhado da grande história das migrações humanas. E constataram que a maior divergência genômica de todas — logo, a mais antiga — foi a que ocorreu entre os bosquímanos San e todo o restante da população do planeta.
— Trata-se de um tributo fenomenal aos povos Khoe e San, aos quais estamos dando a oportunidade de reclamar seu lugar na História do mundo — afirmou Himla Soodyall, lembrando que os bosquímanos estão desaparecendo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Genoma de tentilhão que Charles Darwin estudou foi sequenciado



O "Geospiza fortis" tem 16.286 genes e alguns podem ser importantes para as suas capacidades vocais  

O "Geospiza fortis" tem 16.286 genes e alguns podem ser importantes para as suas capacidades vocais (Putney Mark)
O genoma de uma das espécies de tentilhões de Charles Darwin foi sequenciado, agora só falta fazer o mesmo a mais alguns milhares de espécies para que o BGI - Genoma 10K atinja o seu objectivo. O projecto, com direcção norte-americana, pretende sequenciar o ADN de 10.000 espécies de vertebrados nos próximos anos. Um dos primeiros genomas lidos neste programa, que reúne a colaboração de vários cientistas, foi o do Geospiza fortis, que Charles Darwin viu nas ilhas Galápagos, na viagem histórica do navio Beagle.

O ADN do Geospiza fortis será o primeiro do projecto BGI - Genoma 10K a ficar disponível na base pública Genome Browser, da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. O simbolismo de este ser o primeiro genoma do projecto escolhido para estar nesta biblioteca não passa despercebido. "É simbólico porque foi a diversidade de fenótipos (características visíveis das espécies) nestes tentilhões que contribuiu para a teoria da evolução de Darwin", diz Erich Jarvis, num comunicado da universidade.

Erich Jarvis, que é professor da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, EUA, estuda a aprendizagem do canto ao nível do cérebro das aves. "O avanço científico [da sequenciação do genoma do tentilhão] vai permitir-nos investigar os genomas de um grupo de espécies que são parentes próximas e têm diversidade suficiente para ajudar a perceber melhor a genética das características [que foram escolhidas] na evolução", diz o investigador.

Passados 153 anos desde a publicação de Na Origem das Espécies - o livro em que Darwin deu a primeira explicação de como a vida evolui -, os cientistas continuam a tentar perceber os processos mais ínfimos que ocorrem nas células dos organismos e que permitem que haja tanta diversidade de espécies na Terra.

Essa variedade reflecte-se no nome do tentilhão agora sequenciado, uma das 15 espécies de "tentilhões de Darwin", como são conhecidos, que existem nas Galápagos. O Geospiza fortis tem como nome comum tentilhão-de-solo-médio. Alimenta-se de sementes que estão no chão, nas várias ilhas onde vive no arquipélago das Galápagos. Compete pela comida com outras espécies de tentilhões. Duas delas estão muito próximas a nível evolutivo e pertencem ao mesmo género: é o tentilhão-de-solo-pequeno e o tentilhão-de-solo-grande. A diferença nos nomes destas três aves está no tamanho dos bicos: comem sementes no chão, só que especializaram-se em tamanhos diferentes e os bicos adaptaram-se às dimensões dessas sementes.

Darwin, que chegou às Galápagos em 1835, só se apercebeu destas particularidades muito depois, quando já tinha voltado a Inglaterra. "Ao observar esta diversidade de estruturas num grupo de aves tão pequeno e intimamente relacionado, é possível imaginar que, havendo de início poucas aves neste arquipélago, uma espécie sofreu modificações em diferentes direcções", escreveu no seu livro sobre as viagens no Beagle.

O BGI - Genoma 10K, que vai sequenciar cerca de um genoma por cada género de vertebrados que existe na Terra (peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos), é a continuação da tradição deixada por Darwin. O objectivo é "compreender o quão complexa foi a evolução da vida animal através das mudanças no ADN e usar este conhecimento para nos tornarmos melhores guardiões do planeta", lê-se no site do projecto.

A lista dos primeiros 100 vertebrados que serão sequenciados já está definida pela organização, algumas das descodificações já terminaram, como a do tentilhão, juntando-se a outras 120 espécies de vertebrados cujo genoma já se conhece.

Rápida adaptação

O genoma do Geospiza fortis, publicado na revista GigaScience, foi sequenciado por uma equipa do Instituto Genómico de Pequim, que é um dos colaboradores do BGI - Genoma 10K. Os resultados mostram que esta espécie tem 16.286 genes. "Estes tentilhões são de uma grande importância histórica, mas Darwin dificilmente terá previsto que se iriam tornar o modelo perfeito para estudar a evolução em acção", diz Goujie Zhang, um dos responsáveis pelo trabalho, referindo-se à capacidade rápida de adaptação da ave.

Nas últimas décadas, cientistas que estudaram a ave testemunharam a adaptação a mudanças climáticas que ocorreu em gerações. "Ter o genoma sequenciado abre portas para estudos que olham para as mudanças a nível genómico relacionadas com esta evolução rápida", diz Goujie.

domingo, 19 de agosto de 2012

Hominídeos de três espécies conviveram na África, diz estudo


REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE "CIÊNCIA+SAÚDE"
É um cenário que parece saído de romances de fantasia, como "O Senhor dos Anéis": três espécies distintas de seres inteligentes, cada uma delas com aparência e cultura próprias, vivendo lado a lado por milênios.
Segundo uma nova pesquisa, é exatamente isso o que aconteceu na África Oriental há 1,9 milhão de anos, quando o gênero humano, o Homo, estava se estabelecendo.
Novos fósseis --fragmentos de um crânio e mandíbulas--, descobertos em Koobi Fora, no Quênia, são a base dessa hipótese, defendida em estudo na edição de hoje da revista científica "Nature".

Editoria de arte/folhapress
O grupo de Meave Leakey, do Instituto da Bacia Turkana, em Nairóbi, analisou a anatomia desses cacos e concluiu que eles se encaixariam com outro fóssil, o crânio conhecido como KNM-ER 1470, achado nos anos 1970.
Para alguns, o KNM-ER 1470 representaria uma espécie separada de hominídeo, o Homo rudolfensis, distinta de dois velhos conhecidos dos paleoantropólogos, o Homo erectus e o Homo habilis.
Para outros, ele não passaria de uma variante do H. habilis.
Os novos fósseis parecem confirmar que o H. rudolfensis pertencia a uma linhagem distinta --embora Leakey e seus colegas não usem o nome. Querem mais estudos antes de dar esse passo.
Se eles estiverem corretos, cai por terra de vez uma ideia que já estava sendo muito atacada: a de que teria havido uma progressão linear de espécies de humanos primitivos --H. habilis gerando H. erectus gerando H. sapiens-- rumo ao homem moderno.
Em vez disso, prevaleceria o chamado modelo do arbusto: vários "galhos" da linhagem humana evoluindo ao mesmo tempo, cada um com suas próprias adaptações e estilos de vida. Alguns teriam se extinguido, enquanto outros deixaram descendentes.
Esteban Sarmiento, primatologista da Fundação Evolução Humana, em Nova York, diz que tem dúvidas sobre as conclusões do estudo.
"No fundo, o principal argumento para associarem esses fósseis ao KNM-ER 1470 é a idade deles, a comparação morfológica não mostra isso.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Reabre museu que recorda colega teuto-brasileiro de Darwin

FRANCIELE CARDOSO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM BLUMENAU
Depois de quase quatro anos fechado, o Museu de Ecologia Fritz Müller finalmente voltou a receber visitantes em Blumenau (SC).
A casa onde funciona o museu sofreu com as fortes chuvas que atingiram a região em 2008 e que causaram deslizamentos no terreno. Os pilares da construção, erguida em 1852, ficaram expostos, e o museu foi fechado.

Prefeitura Municipal de Blumenau/Divulgação
Fachada do Museu de Ecologia Fritz Müller, em Blumenau, SC, reaberto em junho depois de 4 anos fechado. O museu foi atingido pelas fortes chuvas de 2008. A casa, do século 19, teve problemas na sua estrutura. Crédito: Divulgação/Prefeitura Municipal de Blumenau <M> ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***</M>
Fachada do Museu de Ecologia Fritz Müller, em Blumenau, SC, reaberto depois de 4 anos fechado.
Com um investimento de R$ 80 mil, que incluiu aterramento e paisagismo, o prédio foi recuperado e pode receber de novo o material das exposições, que tinha sido levado para as casas de funcionários.
Mas ainda faltam reparos, principalmente no assoalho, que cedeu alguns centímetros. Um muro terá de ser refeito, a fiação elétrica precisa ser trocada e algumas coleções serão recuperadas.
A bióloga que trabalha no museu, Mabeli Espindola, afirma que já prepara um projeto para fazer uma revitalização completa. A ideia é ter ajuda de universidades públicas e da iniciativa privada para a tarefa.
O museu leva o nome do naturalista alemão Friedrich Theodor Müller. Ele se mudou para o Brasil e se instalou em Blumenau em 1852, aos 30 anos, para pesquisar a fauna e a flora do país.
Enquanto morou por aqui, Müller se correspondeu com cientistas importantes, entre eles Charles Darwin. O trabalho dele trouxe apoio empírico para a teoria da evolução.
A casa que abriga o museu foi a residência de Müller por cerca de 20 anos. Em 1936, o imóvel foi desapropriado para dar lugar ao Museu de Ecologia, onde estão relíquias doadas por parentes do naturalista, como um microscópio e um relógio de parede.
No museu, há seis salas que caracterizam os estudos realizados por Fritz Müller. Entre as peças, estão fósseis e ossos de espécies em extinção no bioma da mata atlântica e até lanças e utensílios indígenas da tribo xokleng, originárias do vale do Itajaí.
Mas nem tudo está em Blumenau. Parte das coleções e pesquisas de Müller está no Museu Nacional da UFRJ, no Rio de Janeiro. Os originais de poesias estão espalhados em museus pelo mundo.

sábado, 2 de junho de 2012

Correspondência entre Darwin e Fritz Müller ajudou a consolidar a teoria da evolução


   
NELDSON MARCOLIN | Edição 194 - Abril de 2012
© LUIZ ROBERTO FONTES
Livro de Müller traduzido para o inglês a pedido do cientista inglês (esquerda) e o original em alemão


O ano de 1864 foi especial para Charles Darwin. Sob fogo cruzado de grande parte da comunidade científica de seu país e do exterior, o cientista britânico viu serem publicados um livro e um artigo científico que atacavam suas ideias sobre evolução: Exame do livro do senhor Darwin sobre a origem das espécies, do fisiologista francês Pierre Flourens, e Sobre a teoria darwinista da criação, do anatomista suíço Albert Kölliker. A origem das espécies fora lançado em 1859 e tivera todos os seus 1.250 exemplares esgotados em um dia. A controvérsia sobre o tema transformou-se num grande debate científico internacional e ultrapassou rapidamente as fronteiras da academia. Para sorte do evolucionista, também em 1864 surgiu em Leipzig, Alemanha, outra obra abordando a teoria da evolução, cujo título não deixava dúvidas para qual lado pendia: Para Darwin (Für Darwin, no original). Seu autor era Fritz Müller (1822-1897), naturalista que vivia na então cidade de Desterro (atual Florianópolis), em Santa Catarina, e dava aulas no liceu provincial.
O livro de Müller chegou às mãos de Darwin em 1865. Sua mulher, Emma, conhecedora do idioma alemão, leu para o marido já fazendo a tradução. Darwin ficou profundamente admirado com o trabalho. Ao contrário da imensa maioria dos que opinavam sobre A origem das espécies, o naturalista radicado no Brasil o fazia com propriedade, apresentando exemplos zoológicos descritos em detalhes que corroboravam a teoria da evolução, sem se deter em questões filosóficas e religiosas. 
“O livro foi muito importante para Darwin não só pelo apoio, mas também porque ajudou a consolidar a teoria darwinista 
na comunidade científica da época”, diz o biólogo e médico legista Luiz Roberto Fontes, coautor da tradução de Für Darwin (editora da UFSC, 2009) para o português com Stefano Hagen, professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo. Ambos fazem parte do projeto Nosso Fritz Müller, de recuperação da memória do cientista alemão que viveu 
45 anos em Santa Catarina, até sua morte.
© PROJETO NOSSO FRITZ MüLLER
Microscópio original do naturalista, enviado pelo amigo Max Schultze

O naturalista havia chegado ao Brasil em 1852, aos 30 anos, com a mulher, uma filha 
e um dos irmãos para a Colônia Blumenau, em Santa Catarina. No começo trabalhava como simples colono, manejando a enxada e o machado, apesar dos dois títulos acadêmicos que possuía, como biólogo e médico. Foi em 1861, quando já estava em Desterro, que seu amigo Max Schultze lhe enviou a tradução alemã de A origem das espécies. Schultze o mantinha atualizado sobre os debates científicos na Europa e despachava anualmente para o Brasil livros e algum material 
para pesquisa, como um microscópio pedido por ele. Encantado com as ideias do inglês, Müller trabalhou sistematicamente no 
estudo de várias espécies, em especial crustáceos, 
e encontrou provas inequívocas do acerto darwinista. Nos anos seguintes ele reuniu suas observações e experimentos em uma monografia que, em homenagem ao inglês, chamou de Para Darwin. Em seguida o enviou para Schultze, que mandou publicar.

O trabalho de Müller fez com que Darwin estabelecesse uma correspondência, colaboração e amizade que duraram até sua morte, em 1882, com cerca de 60 cartas trocadas de lado a lado. Em 1869 Darwin bancou do próprio bolso a tradução do livro para o inglês e a publicação de mil exemplares, com o título Fatos e argumentos a favor de Darwin. Até a sexta edição de A origem das espécies (1872), considerada a definitiva, havia 12 citações sobre os estudos de Müller. “Também ocorreu de Darwin considerar algumas cartas do naturalista alemão tão informativas que sugeria sua publicação como artigo científico em revistas especializadas”, conta Stefano Hagen. Fritz Müller teve uma extensa vida científica produtiva no Brasil (ver Pesquisa FAPESP nº 105) e publicou cerca de 260 artigos, a maioria no exterior.
Desde 2010, Fontes e Hagen colaboram com o Instituto Martius-Staden, de São Paulo, para maior divulgação da história e 
da obra de Müller. Foi montada uma exposição 
que percorreu 16 instituições diferentes pelo Brasil e será levada ao Centro Brasileiro da Universidade de Tübingen, na Alemanha, entre maio e julho. Como neste ano comemoram-se 
os 190 anos de nascimento do naturalista, o instituto transformou o catálogo da exposição no e-book bilíngue Fritz Müller – O príncipe dos observadores, a forma como Darwin referia-se ao amigo alemão naturalizado brasileiro. O e-book pode 
ser acessado em www.martiusstaden.org.br.

domingo, 20 de maio de 2012

Humanos são naturalmente pacíficos, afirma Frans de Waal



Primatologista defende que primatas nunca precisaram recorrer à razão para manter a violência sob controle. "O passado violento é apenas uma suposição"

Marco Túlio Pires
O comportamento pacífico pode ser observado em primatas humanos e não humanos como motor das relações sociais, afirma o primatólogo holandês Frans de Waals
O comportamento pacífico pode ser observado em primatas humanos e não humanos como motor das relações sociais, afirma o primatólogo holandês Frans de Waals (Fuse/Thinkstock)
A guerra não está no feitio natural do ser humano, como defendia o filósofo inglês Thomas Hobbes no século XVII, um dos pais da política moderna e, mais recentemente, o psicólogo canadense Steven Pinker. O normal da nossa espécie é justamente o contrário: nós seríamos naturalmente pacíficos.

"Se realmente houvesse uma base genética para nossa participação em combates mortais, deveríamos praticá-los de bom grado", escreve Frans de Waal, holandês especialista em comportamento animal, psicologia e primatologia, em um artigo que será publicado nesta sexta-feira na revista Science.

Waal ataca uma das suposições de Pinker no livro The Better Angels of Our Nature – Why Violence Has Declined (Editora Viking, 802 páginas, sem edição brasileira). Para o canadense, os antepassados viviam em guerra e a violência foi diminuindo lentamente com o amadurecimento do conhecimento humano, principalmente após o século XVI, com a 'Era da Razão'.

Waal contesta essa visão.  "A ideia de que vivemos um passado violento é apenas uma suposição", disse em entrevista a VEJA. O comportamento pacífico sempre esteve presente como motor das relações sociais de antigamente em primatas humanos e não humanos. "Os primatas nunca recorreram ao iluminismo para manter a violência sob controle."

Biblioteca


The Better Angels of Our Nature - Why Violence Has Declined
Pinker demonstra com estatísticas que a humanidade passa por seu mais pacífico período histórico. Nessa visão, o terrorismo islâmico, os massacres em escolas e locais públicos e a criminalidade urbana empalidecem diante da brutalidade sem limites das eras anteriores. Pinker diz que o anjo civilizatório, enfim, aprisionou a maldade inata do homem.

Autor: PINKER, STEVEN
Editora: VIKING

O primatólogo apresenta sua defesa com base em dois argumentos. O primeiro diz respeito à falta de provas científicas para afirmar que os antepassados do homem viviam em um estado de guerra, além de diversos estudos que defendem justamente o contrário.

"Os caçadores-coletores comercializavam, realizavam casamentos com grupos distintos e permitiam a passagem de estranhos em seus territórios", escreve Waal. "Eram frequentemente pacíficos e algumas vezes violentos". Embora existam evidências de que assassinatos isolados ocorriam há centenas de milhares de anos, não há sinais de guerra antes da Revolução Agrícola, há 12.000 anos. 

Arqueólogos nunca encontraram, por exemplo, cemitérios com um grande número de armas atravessando esqueletos antes da Revolução Agrícola. "Isso não quer dizer que a guerra não existia nessa época, mas significa que a suposição costumeira de que nossos ancestrais travaram longas guerras e passavam por períodos breves de paz carece de respaldo arqueológico", escreve de Waal. 

Empatia — O segundo argumento de Waal diz respeito à comparação que frequentemente se faz entre o comportamento de chimpanzés e bonobos para justificar a naturalidade da violência humana. O primatólogo defende que, embora os chimpanzés tenham comportamento por vezes agressivo, os bonobos são marcados por uma convivência relativamente pacífica e altamente empática.

"Agressão fatal entre bonobos nunca foi observada e algumas vezes grupos diferentes se misturam em atividades sexuais ou lúdicas", argumenta. "Esses primatas podem ser os mais próximos do ancestral comum entre chimpanzés e humanos do que qualquer chimpanzé vivo."
Avanços científicos nos últimos 10 anos começaram a questionar a visão de que a vida animal, e consequentemente a natureza humana, é baseada na competição desenfreada que leva ao estado de guerra. Depois da descoberta de que chimpanzés se beijam e abraçam frequentemente depois de uma briga dentro do grupo, inúmeros estudos documentaram a "reconciliação" em primatas não humanos e outros animais.
"A reconciliação é um mecanismo social comum que seria supérfluo se a vida social fosse regida inteiramente pela dominação e competição", diz o pesquisador.
A paz também traz benefícios para o indivíduo. "Pessoas relatam uma sensação de recompensa após fazerem algo bom e mostram ativação de regiões relacionadas à recompensa no cérebro quando isso acontece", escreve o especialista. "Não sabemos se isso ocorre com outros primatas e é importante que seja investigado". 
Waal finaliza a análise dizendo que o estudo da empatia pode ser a única saída para lidar com a guerra. "Sabemos que ela pode ser ativada por seres de outras espécies", referindo-se, por exemplo, a quando humanos salvam uma baleia encalhada. Não fosse a empatia por todas as formas de vida, soldados não pensariam duas vezes antes de matar nem voltariam do campo de batalha com problemas psicológicos. "Trata-se de um grande desafio para um mundo que deseja integrar uma multitude de grupos étnicos e nações."


Frans de Waal

"Os seres humanos possuem mecanismos naturais de manutenção da paz"

Frans de Waal
especialista em comportamento animal, psicologia e primatologia, e diretor do Centro de Pesquisa Primata da Emory University, de Atl



O senhor concorda com Steven Pinker sobre o passado violento dos nossos antepassados? É difícil julgar o livro do Pinker, mas certamente a ideia de que vivemos em um passado violento é apenas uma suposição, como discuto no meu artigo da Science. Não existem evidências concretas para apoiar tal argumentação. A ideia de que sempre fomos violentos é especulação. Pode ser verdade, mas não há provas.

O conhecimento não teria ajudado a nos tornarmos um povo mais pacífico, como sugere Pinker? Entendo que os seres humanos, assim como outras espécies, possuem mecanismos naturais de manutenção da paz. Os bonobos, por exemplo, nunca precisaram do iluminismo para manter a violência sob controle.

Os bonobos são mais pacíficos e os chimpanzés mais agressivos. Ambas são características observadas nos seres humanos. Por que favorecer os bonobos e dizer que os humanos são mais parecidos com eles? Os bonobos e os chimpanzés são os parentes mais próximos do homem. Nosso último ancestral comum viveu cerca de seis milhões de anos atrás e existem estudos que indicam sua proximidade com os bonobos. A violência na nossa linhagem pode ter começado durante a Revolução Agrícola. Isso explica por que não somos muito bons com a violência e desenvolvemos transtorno do stress pós traumático em situações de guerra.

Até agora, não se observou bonobos em comportamento de guerra. Contudo, há muitos registros de agressão letal entre seres humanos e entre chimpanzés. Essa não seria uma indicação de que, pelo menos no comportamento agressivo, humanos e chimpanzés são parecidos? Sim, é uma análise válida. Contudo os chimpanzés podem ser uma variação violenta. Com isso quero dizer que nosso ancestral comum e os bonobos podem representar o “tipo original” e os chimpanzés desenvolveram a violência depois de terem se separado dos bonobos cerca de dois milhões de anos atrás. Além disso, os humanos desenvolveram a violência, ou pelo menos a guerra, só depois da Revolução Agrícola. Não sabemos, mas se isso for verdade, a comparação não é válida.